Design e desejo

Design e desejo

O design, sabemos, pode exercer um poderoso vínculo emocional entre o objeto e o usuário. Cada vez mais, as empresas têm descoberto a capacidade do design tornar os produtos cada vez mais desejáveis, seja qual for o critério em questão. Hoje, “forma segue função” é um axioma que os grandes cases tem demonstrado ser ultrapassado e limitador. Além da função, a forma pode trazer inúmeros benefícios para o produto.

Mas o que é o desejo? Como o design atua nesse aspecto?

Na filosofia, o desejo já foi investigado muitas vezes sob diversos aspectos. Geralmente apontado como consequência de uma lacuna, o desejo seria uma emoção que nos atrai ao objeto que supostamente a preenche. Porém, sendo o prazer esgotável, o desejo se torna a dor que nos leva à busca eterna pela momentânea satisfação, segundo Schopenhauer.

Já em Lacan o desejo é despertado pelo desejo do outro durante o desenvolvimento do “eu”. Seria então impossível desejarmos algo que ninguém deseja, já que nossos desejos são frutos do espelho que enxergamos no outro. Complementando esse pensamento, algo só é considerado bom porque alguém o deseja, citando Espinosa.

Essa é a eterna busca pelo Bem. O dilema para ser bem aceito em seu meio é o dilema das “boas escolhas”. Se escolhemos algo que é convencionalmente aceito como “bom”, seremos considerados “bons”. O oposto também é válido.

Portanto, podemos caracterizar o desejo em duas vertentes como um fim: a satisfação pessoal e a aceitação social. Essa segunda ainda se divide no desejo maior de ser identificado e aceito em um meio (nicho) e o desejo de ser diferenciado em relação ao todo (customizacionismo; inventei uma palavra).

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Vale destacar também que desejar não é querer. A diferença está na origem de ambos. Enquanto o querer se dá através de processos lógicos e conscientes (podemos dizer “funcionais”), o desejo é intrínseco e advém do inconsciente, normalmente não sabemos porque verdadeiramente desejamos tal objeto. Por exemplo, podemos querer comprar uma roupa para ficarmos mais bonitos, mas “ficar bonito” está atrelado a algum desejo que nos impulsiona inconscientemente a tomar decisões; por exemplo, o desejo de melhorar relacionamentos afetivos.

Claro que ainda há muito a ser dito sobre o desejo em si. Recomendo a leitura do artigo acadêmico usado como base para esse post: “O design do desejo – O sentimento de desejo e o poder de despertá-lo através do design”, de Vivian Golçalves Pereira. Em futuros posts pretendo abordar com mais profundidade.

Relação objeto x desejo

Se compreendermos o valor que um objeto ganha na proporção do desejo que ele desperta, o próprio trabalho do designer ganha um novo valor em nossa cultura brasileira, tão atrasada em relação a essa área profissional.

Vejamos o gráfico abaixo.

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A coluna vertical indica o valor percebido pelo usuário em relação ao produto. Claro que entre os dois polos podem existir muitas variações, mas vamos abstrair. Obviamente queremos produtos agradáveis, e não desagradáveis. Nesse aspecto já estamos falando além do feijão com arroz do “forma segue função”. Porém, notemos a coluna horizontal, que indica a intensidade de estímulo. Ela normalmente é negligenciada, seja pela falta de tempo no projeto, seja por falta de conhecimento. Podemos ter um produto agradável, mas ao mesmo tempo com baixa intensidade de estímulo.

O objeto que desperta ou preenche a lacuna do desejo na pessoa, passa a agregar em si um novo valor, aquele que Marx chamou de “percepção de uso”, que vai além do valor de custo de produção, transporte, etc.

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Esse novo valor é definido pela emoção provocado no consumidor, ou seja, pela intensidade de estímulo + valor percebido (vide gráfico acima).

Costumamos criar produtos e marcas que agreguem esse valor para o usuário, mas percebamos que há uma via de mão dupla aqui. O objeto pode tanto atender pontualmente ao desejo do consumidor, como o consumidor pode dar sua própria medida de valor ao objeto. Como esse valor é intangível e imensurável (ao contrário do dinheiro, que todos concordamos: um real vale um real), esse novo valor é uma barganha, uma espécie de mercado turco. Não importa o preço do produto, pode haver ali um valor muito superior ao preço, e o mais fascinante, esse valor pode existir na mente de apenas uma, dez ou mil pessoas. Tentamos criar objetos que despertem um valor X, mas é a pessoa quem atribuirá para si o valor que aquele objeto agrega para ela.

Essa relativização do desejo é um bom motivo para abrirmos mão da falácia do “intuitivo”. Não há uma matriz que define que qualquer valor ou função sejam intuitivos para nenhum ser humano. Quando não há garantias no caos das emoções humanas, o design se força a deixar de ser funcional para seguir rumo à excelência.

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