O modernismo por trás do design flat

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Já falamos aqui sobre iOS 7, Flat e Skeumorfismo, explicando um pouco sobre a necessidade cada vez maior de abrir mão de algumas metáforas nas interfaces digitais. A minha visão (bem generalista, por sinal) é de que o design na web caminha (ou é empurrada?) a passos largos rumo a uma identidade própria universal gerada pela necessidade de ensinar aos usuários conceitos até então inexistentes, criados exclusivamente no ambiente virtual. Por exemplo, o conceito de Download.

Isso obviamente não se limita à “rivalidade” entre skeumorfismo e flat, mas se reflete nessa disputa. Uma vez que se abandona a necessidade e/ou viabilidade do uso de metáforas do mundo real para criar, suponhamos, ícones, também não há necessidade para simular conceitos físicos como profundidade e iluminação. Logo, essa “evolução” para uma linguagem própria se dá tanto na elaboração de novos ícones para funcionalidades quanto para elaboração dos suportes dessas funcionalidades, por exemplo, os botões.

Temos então dois aspectos em transição na linguagem visual da web: iconografia, mais usadas com o uso de metáforas, (por exemplo o disquete para a função de salvar um arquivo) e forma, que é mais precisamente onde entra a disputa entre skeumorfismo e o flat. Explicando essa distinção, podemos criar algumas combinações:

Combinações de metaforas, abstratos, flat e skeumorfico

Mas se pensarmos apenas em termos de linguagem e objetividade, seremos levados a refletir no aspecto funcionalista do design para web, cada vez mais enfatizado. Temos hoje uma cultura cada vez mais focada no funcionalismo. Repetimos mantras, frases como Menos é mais, A forma segue função, e Design é projeto. Mas será que, antes de perpetuarmos tais frases, conhecemos o contexto em que elas foram cunhadas? Ou ainda, quando falamos de funcionalismo, sabemos de onde ele veio, para que, e quais são suas problemáticas?

Menos é mais

A frase foi dita pelo arquiteto alemão Ludwig Mies Van Der Rohe. Mies foi professor da famosa Bauhaus, escola de design e arquitetura que influenciou o mundo trazendo o modernismo para essas duas áreas. Precisamos entender que a metodologia e os conceitos da Bauhaus foram fortemente influenciados por um idealismo alemão pós-guerra e por um desejo de criar uma linguagem universal¹. Se prestarmos atenção nas pesquisas da Bauhaus, veremos uma busca constante nesse sentido. As teorias de Kandinsky procuravam uma linguagem visual universal. As experiências tipográficas de Herbert Bayer e seus simpatizantes buscavam a tipografia universal, que inclusive postulava a obsolecencia de caracteres maiúsculos e da forma além da essência das letras². E através de Mies, a arquitetura também ganha ares de minimalismo. Foi ele um dos fundadores do que conhecemos por International Style.

Então veja que estes conceitos e as frases perpetuadas que mencionei antes estão alinhados com o modernismo alemão e o construtivismo russo, que não podem ser analisados fora de seu contexto histórico. Um dos princípios do construtivismo era expresso em um manifesto da seguinte forma:

“O objeto deve ser tratado como um todo, e assim não possuirá nenhum ‘estilo’ discernível, e será simplesmente o produto de uma ordem industrial como um carro, um avião, etc.”³

Lembra o que eu disse no inicio sobre os rumos da web a uma identidade própria e universal? Se considerarmos que o flat veio para dominar o mercado e decratar a morte do skeumorfismo, veremos a concretização dos ideais construtivistas, não do domínio de um estilo, mas da ausência de estilos discerníveis, ou ainda um estilo absolutamente neutro.

Mas qual é o problema disso? Não seria ótimo se a web encontrasse uma linguagem própria, universal e funcionalista? Bem, certamente há vantagens neste pensamento, tanto é que através dele foi contruído a maior parte do design e da arquitetura do sec. XX. Mas tratarei de prós e contras destes pensamentos na web de hoje nos próximos posts. Até lá, deixem nos comentários o que pensam sobre este assunto.

¹Muito embora a Bauhaus de Weimar não fosse totalmente adepta deste pensamento. Porém, deixamos para outra discussão as fases da Bauhaus e seu legado.

²Para maiores informações sobre este tema, confira o ensaio de Mike Mills no livro “ABC da Bauhaus”, organizado por Ellen Lupton e J. Abbott Miller.

³Fonte: Tipografia Digital, Priscila Freitas, pag 21

Confira os demais posts dessa série

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serie-web-modernismo2

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There are 3 comments. Add yours

  1. 9th julho 2013 | Carlos Carneiro says: Responder
    Realmente a web caminha para uma linguagem de comunicação universal, e não apenas em termos de design, mas de uma forma geral. Se isso é bom ou ruim, deixamos para depois falar disso, mas realmente mais importante do que uma linguagem universal é a identidade própria que a web tem desenvolvido. Eu acho isso uma coisa muito legal e importante para poder fluir inovação. Salve a web!
  2. Pingback: A influência do design no posicionamento da marca | i9 Social Media 4 de outubro de 2013

    […] o “mundo da internet” entrou em discussão sobre a morte do Skeumorfismo e o renascimento do Flat Design. Tudo isso devido ao lançamento do novo sistema operacional da Apple, o iOS 7, que após 6 anos, […]

  3. Pingback: Divisão 42 | Carregar,mirar e escrever 15 de outubro de 2013

    […] O modernismo por trás do design flat […]

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