iOS7, a psicologia do design flat e a morte do Skeumorfismo

iOS7 flat design

Essa semana o assunto nas redes sociais foi o iOS 7 e o tal do design flat, dividindo opiniões entre os próprios fãs da maçã. Alguns amaram, outros odiaram. E eu, que já vinha me preparando psicologicamente para escrever um artigo sobre o flat, decidi aproveitar o momento.

Já aviso que não sou um usuário da Apple, nem mesmo me entusiasmo com seu design (pois é, me sinto um alienígena entre meus colegas de profissão). Estou escrevendo, confiando que esse fato não influenciará minhas palavras. Mas também aviso que será um post opinativo, dividido em duas partes, com minhas teorias, percepções e opiniões pessoais surgidas “epifaticamente” em discussões no G+, que espero fazer algum sentido.

Windows? Oi?

Uma das primeiras reações de muita gente ao ver um design flat, inclusive o iOS 7, tem sido comparar com Windows 8. Sobre isso, acho um fenômeno curioso que a Microsoft, em uma única versão do Win, conseguiu agregar para si o conceito do flat tão fortemente em meio ao público “leigo”, muito embora o flat já existisse por aí há um tempo, ganhando forças com o minimalismo.

É estranho que façam caretas ao iOS 7, murmurando “why so Windows? :p”, mas se esquecendo que a própria Google já vem trabalhando com design cada vez mais flat.

Microsoft à parte, um designer fez uma crítica à falta de consistência e padronização no visual, e criou uma solução para os ícones para o iOS7.

A morte o Skeumorfismo

O Skeumorfismo, que usa metáforas para associarmos elementos digitais ao mundo analógico, bem como imita texturas e dimensões dos objetos reais, serviu de suporte para entendermos uma interface com uma curva menor de aprendizado. Essa foi a grande sacada do desktop em sua origem. O ícone de disquete salva o arquivo, o ícone de lixeira tem aquilo que você não usa mais, o ícone das pastas organiza seus “arquivos”, etc. Só que essas coisas não funcionarão mais em uma ou duas gerações… ou melhor… serão obsoletas.

Para quem não está familiarizado com o termo, o Skeumorfismo é um ornamento físico, desenho ou técnica sobre um objeto feito para se parecer com um outro material ou técnica.  (Revista Clichê)

Ok, o subtítulo “A morte o Skeumorfismo” soa apocalíptico. Conceitos nunca morrem, se reciclam, e pretendo abordar isso mais a fundo na segunda parte desse texto. Não sou adepto da ideia de que “as novas gerações nunca viram um disquete, logo o ícone de salvar não faz mais sentido”. Essa afirmação é precipitada. Todos sabem, e saberão por muito tempo, o que é um disquete, assim como sabemos o que é um pincel bico-de-pena quando vemos um ícone usando essa metáfora em um editor de imagens, ou o que é um papiro, quando editores de texto usam como ícone. Quem lembra nas antigas versões do Photoshop, que usava como ícone uma pena? Todos entendemos o motivo, embora nunca tenhamos usado penas para desenhar. São coisas que nem existem mais, mas ficam no consciente coletivo porque fizeram parte de todo um contexto global e cultural.

O que afirmo é que o Skeumorfismo está se tornando desnecessário. Entendemos o digital. E ele precisa se libertar dos limites do analógico. Não podemos mais nos limitar às metáforas do mundo real. O digital pode ir além, ganhar conceitos “impossíveis”, atender a necessidades que nem sabemos existirem. Em um mundo onde Google Glass já é uma realidade, o Skeumorfismo pode limitar a imaginação e a tecnologia. Criar novos conceitos visuais, sem referências do mundo real, para expandir as possibilidades de referências, pode ser o novo desafio no design digital nas próximas décadas, e até se aproximar da criação de um novo universo.

Exemplos de conceitos surgidos dentro do ambiente digital e soluções gráficas que não correspondem ao mundo analógico:

icons-Skeumorfismo-x-flat

Load, Share, Maximize, Minimize e Download

Vale lembrar que a partir dessas definições, não se pode encarar o flat como a antítese do Skeumorfismo, mas como uma abordagem diferente. Esses ícones representam conceitos abstratos e possuem formas inexistentes no mundo físico, mas alguns deles foram desenhados com efeitos volume e textura, simulando objetos físicos. É um skeumorfismo, não na concepção iconográfica, mas na abordagem .

Assim, podemos também concluir que o “anti-Skeumorfismo” não é uma necessidade apenas da web, mas no design gráfico impresso do sec. XX já existia uma demanda por uma iconografia para representar graficamente conceitos abstratos. Exemplo:

icon_comment

A Piscologia do Flat

Em uma das discussões sobre flat no grupo da Kolaborativa no Google Plus, comentei que por trás do design flat existe uma psicologia semiótica que nos dá a ideia de leveza. Isso seria ausência de sombras e texturas, ou a presença estratégica e muito suave de um degradê simulando pouquíssimo volume. Por que haveria sombras em um objeto digital, afinal de contas?

Enquanto o Skeumorfismo nos remete a objetos reais, com volume, peso, textura e massa, dando a impressão de que são objetos com robustez, solidez, pesados, o flat nos lembra folhas de papel, linhas de costura, post-its colados em uma parede branca e completamente lisa. Leve. Mais leve que o celular que você segura. Essa é a ideia. Você está no ônibus ou na fila do banco, segurando o sistema que, dependendo do designer, pode ser, psicologicamente, uma máquina de aço ou uma folha de papel. Além disso, quanto menos informação visual, menos tonalidades de cores e mais abstrações, mais rapidamente captamos a ideia essencial da interface.

E você, gosta do design flat? Por que?

Confira os demais posts dessa série

Série onde continuarei o assunto tentando explicar a influencia do modernismo, pós-modernismo, e mais previsões malucas e descartáveis para o futuro.

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There are 6 comments. Add yours

  1. 15th junho 2013 | @dodilei says: Responder
    Ótimo post! Ultimamente tenho gostado do rumo que o flat design tem tomado na web, tenho visto trabalhos realmente bons. O que mais gosto no flat é essa sensação de design limpo e simples que ele passa, tenho a impressão que as coisas são mais fáceis de achar e em conjunto com uma boa harmonia de fontes a leitura é mais clara.
  2. 16th junho 2013 | Deivith Oliveira says: Responder
    Achei interessante a questão da psicologia do flat design! particularmente, achei a proposta da Metro UI muito extrema... mas levando em consideração que as interfaces estão se "libertando" de referenciais do mundo físico, ela ainda está tentando se conhecer, se encontrar... então é normal encontrarmos tanta discussão sobre isso. o "Flat" do iOS7 é meio esquisitinho... a gente percebe que algumas ~firulas~ ainda estão presentes, como a transparência, o degradê... essa questão da fuga de referencias do mundo físico ainda é meio confusa, fragmentada... acho que nós mesmos, humanos, ainda estamos nos adaptando nesse processo de alforria digital
    • 19th junho 2013 | entedi4do says: Responder
      Verdade, o que a Apple fez é o que chamam de "almost flat". Ainda é dificil se desvincular das metáforas. Vamos ver as proximas atualizações do IOS7 e ver os rumos que vão tomar.
  3. 20th agosto 2013 | Gui Gonzalez says: Responder
    Entedi4do, tenho feito uma análise e encontrei um novo caminho pelo qual a Apple tem seguido, acho errôneo afirmar que o iOS 7 seria flat, pois testei ele e reparei numa coisa, ele não é focado no design visual (como alguns designers são, se esquecendo da usabilidade), ao contrário, reparei que ele parece estar mais focado no design de conteúdo. O tal "flat design" refere-se apenas aos elementos em cores sólidas e sem muitos efeitos de sombra, é basicamente o que a casca do Windows faz e um pouco do Android. O uso do parallax no pano de fundo e todas as transparências mostram que talvez a Apple tenha dado um passo além do que é simplesmente chamado de Flat, mas ainda assim um passo anterior ao "design transparente" https://vimeo.com/29790335
    • 21st agosto 2013 | entedi4do says: Responder
      Eu não sei se entendi muito bem sua colocação. O Flat design é uma nomeclatura para um estilo ESTÉTICO, uma abordagem visual. Obviamente ele não se refere a conteúdo e usabilidade. Então quando me refiro ao uso do flat por parte de algum projeto, claro que não estou analisando outros aspectos do design, como conteúdo e usabilidade. É por essas e outras que esse tema é uma série de posts, e depois pretendo juntar tudo em um projeto, que se quiser participar, serás bem vindo.
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